Em razão de um E-mail que recebi
recentemente de uma irmã muito querida, sinto necessidade de fazer
alguns esclarecimentos quanto a uma doutrina falsa que é pregada nos
meios 'evangélicos': que o pai é 'o sacerdote do lar'. Essa idéia é
um sutil engano em relação à responsabilidade individual no
Evangelho.
Como sempre alerto vocês, basear
práticas cristãs, evangélicas, no Antigo Testamento somente traz
confusão e leva ao desastre espiritual. A vinda de Jesus inaugurou um
relacionamento de Deus conosco totalmente estranho às pessoas que
viviam sob a Lei de Moisés.Aquele que fundamenta a sua prática do
Evangelho em preceitos, procedimentos e figuras do Antigo Testamento
jamais viverá a plenitude da Graça em Jesus Cristo.
Isso é confirmado pelo apóstolo Paulo em sua epístola aos gálatas:
“De Cristo vos desligastes, vós, que procurais justificar-vos
na lei (em obras), da Graça decaístes” - Gálatas
5:4. Esse é o maior
flagelo no meio evangélico de hoje em dia.
A irmã que me escreveu citou
dois textos do Antigo Testamento: Josué 7:24-25, sobre Acã e toda a
sua casa e bens, que foram apedrejados e queimados; e Ezequiel 18:18-23,
e especialmente “O filho não levará a iniqüidade do pai”
(Ezequiel 18:20). Ainda que
as duas citações sejam do Antigo Testamento, não apresentam incoerência.
Observemos a primeira citação: Josué 7:24-25
“Então Josué, e todo o Israel com ele, tomaram a Acã,
e a seus filhos, e a suas filhas, e levaram-nos ao vale de Açor (...) e
depois de apedrejá-los, queimou-os a fogo.”
Você pode observar, nessa
passagem, como o rigor da Lei de Moisés foi aplicada na vida de um povo
rebelde, que rejeitou a libertação e a promessa que Deus lhes dera.
Naquele tempo, o Pai era soberanamente responsável por sua família,
só ele tinha o poder de decidir, seja por maldição, como no caso
acima, ou por bênção, como no caso de Josué, citado abaixo:
“Se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem
sirvais: Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Josué
24:15).
A leitura de Josué capítulo 13
e muitos outros mostra a importância de família, por exemplo na
distribuição das terras: “Deu Moisés também herança a meia
tribo de Manassés. Segundo as suas famílias” (Josué 13:29).
E o episódio da rebelião de Coré, Datã e Abirão (Números
16) é uma triste advertência da severidade e conseqüência de
interpretar o que Deus estabeleceu segundo os rigores da Lei.
Não consigo entender como as pessoas, nestes dias do Evangelho
da liberdade, queiram sujeitar-se ao rigor de leis, obrigações e
ordenanças, quando podem receber “Vida em abundância”
(João 10:10), absolutamente de Graça, porque Jesus cumpriu tudo em
nosso lugar. Quero lembrar
que “Assim diz o Senhor: Por nada fostes vendidos (por Adão); e sem
dinheiro sereis resgatados (por Jesus)” - Isaías 52:3.
Agora, consideremos Ezequiel
18:18-23, com destaque para o v.20:
“A alma que pecar, essa
(que pecou) morrerá; o filho não levará a iniqüidade do pai.”
Para entender a diferença entre
essas duas citações, ambas do Antigo Testamento, é necessário
entender a diferença entre o livro de Josué e o livro de Ezequiel.
Josué, como vários outros livros da época, relata condições
históricas, relata o que se passou com a nação de Israel.
Já Ezequiel é, como Isaías e Jeremias e os outros livros proféticos,
uma profecia referente aos dias do Evangelho: como Deus planejava
relacionar-Se conosco nos dias de hoje, dentro do princípio da Graça
em Jesus Cristo. Assim, é importante observar que, nos dias do
Evangelho, há uma radical mudança de responsabilidade, passando-se da
responsabilidade paterna em relação à família sob a lei, para a
responsabilidade individual sob a Graça.
Por isso a profecia de Ezequiel no capítulo 18 inicia-se com a
seguinte afirmação:
“Que tendes vós, vós que, acerca da terra de Israel,
proferis este provérbio, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os
dentes dos filhos é que se embotaram? (situação impossível,
claro). Tão certo como Eu vivo: diz o Senhor Deus, jamais direis
este provérbio em Israel. Eis que todas as almas são minhas; como a
alma do pai (considerada individualmente), também a alma
do filho é minha (também considerada individualmente);
a
alma que pecar, essa (que pecou) morrerá” -
Ezequiel 1:2-4.
Essa é
uma declaração clara, em profecia, da mudança que há em termos de
responsabilidade no tempo da Graça.
Por isso você, como pai, não é sacerdote do seu lar: não tem
autoridade sobre a fé de seus filhos.
Não há uma referência sequer a isso no Novo Testamento.
Irmão, espero que você entenda
essas considerações e as aceite com amor. O meu objetivo não é combater ninguém, mas alertar as
pessoas quanto ao perigo de basear suas práticas cristãs em
procedimentos ou figuras do Antigo Testamento. Paulo ensina muito
claramente:
“Ninguém,
pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua
nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam
de vir; porém o corpo(igreja) é de Cristo(...) Se morrestes com Cristo
para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos
sujeitais a ordenanças: Não manuseies isto, não proves aquilo, não
toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que
todas estas coisas, com o uso se destroem.
Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como
culto de si mesmo, e falsa
humildade, e rigor ascético, todavia, não têm valor algum contra
a
sensualidade” - Colossenses
2:16,17,20-23.